Coletas da Igreja de Corinto

01/07/2007| sob o tema Sábado. por Elkeane Aragão


COMO não podia deixar de ser, lá vem o surrado texto de I Cor. 16:2, falso pilar, tão falso quanto os que mais o sejam nessa inglória tentativa de justificar, pela Bíblia, a guarda do domingo. O autor, muita de indústria, valeu-se da versão Almeida comum, que omite a expressão “em casa” consignada no original do texto. Percebendo, porém, que teria que admitir o fato (de as coletas serem reservadas parceladamente em casa), sai-se com esta escápula: “Ora, se cada um pusesse de parte ‘em sua casa’ o dinheiro, teria que ser feita a coleta quando Paulo chegasse e era justamente isto o que ele queria evitar!”

Veremos como isto se pulveriza a um simples sopro da verdade.

Nem haveria necessidade de argumentar, pois o próprio texto de Almeida na Versão Revista e Atualizada no Brasil, com uns grifos que poderíamos pôr, se encarregaria de fulminar a falsidade. Ei-la:

“Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, EM CASA, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for.” (I Cor. 16:1, 2)

Maior clareza não pode haver! Torna-se dispensável qualquer comentário! A simples leitura do texto nos convence de que:

  1. Não se tratava de culto nem de reunião de espécie alguma no primeiro dia da semana;
  2. A coleta não era feita na 1reja;
  3. A coleta não era parte do culto nem se destinava à igreja local;
  4. Era uma separação de dinheiro que cada um devia fazer em sua casa;
  5. Quando Paulo viesse, cada um lhe entregaria o total de sua separação semanal, que Paulo levaria ou mandaria para os crentes pobres de Jerusalém. Não se faria coleta alguma quando Paulo viesse, porquanto esta já fora feita, já estava pronta. Paulo somente a tomaria para encaminhá-la ao seu destino.

Diante da clareza meridiana da Bíblia, não sei em que ficam as afirmações do autor do livro O Sabatismo à Luz da Palavra de Deus.

Notemos no texto a expressão “pôr de parte”, separar, reservar, depois de um balanço na situação, “conforme a prosperidade.” Ora, se se tratasse de coleta feita num culto, Paulo não usaria estas expressões. Notemos mais a demolidora expressão “em casa” que está no texto original, e também nas melhores traduções. Isto liqüida a pretensão de ser a coleta feita na igreja. Notemos ainda a expressão “vá juntando”, o que indica uma acumulação que se formava gradativamente mediante periódicas reservas de dinheiro. Tudo tão claro e concludente!

Por que num “primeiro dia da semana”? Porque com o sábado findava-se a semana. Os cristãos eram previdentes e organizados. Era costume no início da semana logo no seu primeiro dia planejarem suas atividades seculares, considerarem os gastos da semana anterior, anteciparem providências e fazerem provisão dos gastas para a nova semana. Uma questão de contabilidade doméstica. Paulo lhes recomenda que, ao fazerem a costumeira previsão, no início da semana, não se esquecessem de separar, o que fosse possível, em dinheiro para os pobres de Jerusalém, colocando o donativo numa caixa em seus lares. A idéia de culto ou de reunião dominical é completamente estranha ao texto, e seria uma deslealdade à Bíblia forçá-la aqui.

O The Cambridge Bible For Schools and Colleges, autorizado comentário das Escrituras publicado pela “Cambridge University Press” dos prelados da Igreja Anglicana, declara, comentando este texto, que “não podemos inferir desta passagem que os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana.”
E prossegue:

” ‘Cada um ponha de lado’, isto é, em casa, no lar, não em reuniões como geralmente se supõe. Ele [Paulo] fala aqui de um costume que havia naquele tempo, de se colocar uma pequena caixa ao lado da cama, e dentro dela se depositavam as ofertas, depois de se fazer oração.”
– Parte “The First Epistle to the Corinthians” editado por J. J. Lias, pág. 164.

Notemos que este comentário é insuspeito, parque é da lavra de ardorosos advogados do repouso dominical.

A seguir, citaremos interessante testemunho católico. O cônego Hugo Bressane de Araújo, em seu opúsculo Perguntas e Respostas, Vol. 1, pág. 23, escreve o seguinte:
Pergunta: Mas dizem os protestantes que S. Paulo manda guardar o domingo?

Resposta: Não. S. Paulo, na I Epístola aos Coríntios, cap. XVI, só ordena que se faça uma coleta para os pobres no primeiro dia da semana; eis as palavras do Apóstolo: verso 2.º: ‘Ao primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte alguma coisa em casa, guardando assim o que bem lhe parecer, para que se não façam as coletas quando eu chegar.’

Porventura esta determinação do Apóstolo acerca das esmolas para os pobres de Jerusalém anula o preceito sobre a observância do sábado?” – Edições 1931, págs. 23 e 24 (Grifos nossos).

Este comentário também é insuspeito, par ser de origem da instituição responsável pela observância dominical religiosa.

Alinhemos ainda alguns testemunhos de pessoas guardadoras do domingo:

Sir William Domville, em seu livro The Sabbath, entre outras considerações diz: “É estranho que um texto que nada diz a respeito de qualquer reunião para qualquer propósito, venha a ser usado para provar um costume de reunir com finalidades religiosas!”

“Se é insustentável inferir do texto um costume de reunir – pois nele não se menciona reunião alguma – parece ainda mais insustentável, e mais incoerente inferir dele… Que a ordem de reservar um donativo em casa signifique que o mesmo deveria ser dado na igreja.”

“A tradução em nossas Bíblias comuns é exatamente como a original: ‘Cada um de vós ponha de parte em casa’. Uma tradução ainda mais literal da palavra original thesaurizon (acumulando), mostra de modo mais claro que cada irmão contribuinte devia ir ajuntando por si mesmo, e não entregar a oferta de semana em semana a uma outra pessoa.”
– The Sabbath, págs. 101-104.

Diz Neander:

“Contudo não podemos de modo algum ver aqui qualquer observância especial do dia, como afirma Osiander.”

John Peter Lange, outro comentarista muito citado, conclui:

“A expressão é, pois, conclusiva contra a opinião prevalecente de que a coleta se faria na igreja. Era ela um negócio individual e privado.”

E mais adiante:

” ‘E vá juntando’… Em virtude de todo domingo alguma contribuição ser posta à parte, formaria, sem dúvida uma acumulação.”

Era, sem dúvida, esta “acumulação” que Paulo tomaria e enviaria de uma só vez, já pronta, para Jerusalém.

A Enciclopédia Bíblica (em inglês) de Cheyne and Black, no artigo “dia do Senhor,” comenta esta passagem, chegando à seguinte conclusão:

“Não devemos, no entanto, passar por alto o fato de que a dádiva de cada um devia ser separada particularmente (par hauto) isto é, em seu próprio lar, e não alguma assembléia de adoração.”

Outro fato digno de nota é que, antes do fim do quarto século de nossa era, ninguém se lembrou de valer-se deste texto para pretender corroborar a guarda do domingo. O primeiro a fazê-lo foi Crisóstomo, em sua Homília 43 sobre I Coríntios. No entanto, o próprio Crisóstomo admite que a coleta não se fazia na igreja.

Eis textualmente seu comentário:

“S. Paulo não afirmou que trouxessem suas ofertas à igreja para que não se envergonhassem da pequenez da quantia; mas, ‘aumentando-a aos poucos em casa, que a tragam, quando eu chegar’; por ora, vão juntando, em casa, e façam de suas casas uma igreja e de seu mealheiro um cofre.”

Ao autor do livro que estamos considerando, devolvemos o “argumento” em forma de silogismo:

Premissa maior: O dia em que o crente, em sua casa, põe de parte um donativo para os pobres, é dia de guarda;

Premissa menor: Ora, os crentes em Corinto faziam isso no primeiro dia da semana;

Conclusão: Logo, o primeiro dia da semana é dia de guarda.

  • Estará certa a premissa maior?
  • Seria esta a forma de se estabelecer uma doutrina?
  • Será sincero este modo de proceder com as coisas divinas?

Pensaram acaso os leitores como deveriam sentir-se os crentes de Corinto, se lhes fosse dado saber naquela ocasião, que alguns professos cristãos do século XX haviam de tentar estabelecer a doutrina da guarda do domingo, no simples fato de eles, os crentes coríntios, colocaram moedas em cofres domésticos com a intenção de ajudar os pobres de Jerusalém?

Com certeza estes amigos de Paulo ficariam estarrecidos! E talvez bem aborrecidos também! Falsos pilares! Bolhas de sabão.

Do livro Subtilezas do Erro de Arnaldo B. Christianini
 

 

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